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Homenagens


Homenagens da 17ª Goiânia Mostra Curtas

 

Abertura

 

Dira Paes

 

Com 32 anos de carreira e 41 filmes no currículo, somando-se curtas e longas, dentre eles o recordista de bilheteria no Brasil depois da retomada, 2 Filhos de Francisco (Breno Silveira) e o recente Redemoinho (José Vilamarim), Dira Paes é homenageada da 17a Goiânia Mostra Curtas, pela sua contribuição ao audiovisual brasileiro, sendo uma das atrizes mais premiadas e respeitadas de sua geração.

No teatro, foram oito espetáculos dirigidos por nomes consagrados como Amir Haddad em O Avarento, de Molière. Na televisão, somam-se 17 trabalhos, entre eles, a novela de grande sucesso de audiência e crítica Velho Chico, com a direção de Luiz Fernando Carvalho.

Descendente de índios, negros e portugueses e nascida em Abaetetuba, no interior do Pará, Dira teve uma infância bem simples ao lado de sete irmãos, em Belém. O sonho de atuar, maior que todos desafios impostos pela falta de recursos e pela distância dos grandes centros artísticos brasileiros, a levou à ideia de se inscrever em uma seleção para uma produção norte-americana dirigida pelo produtor John Boorman, que selecionava jovens brasileiras para atuar, independentemente da formação na área. Dira conseguiu passar em todas as fases: beleza, biotipo específico, teste de gravação de textos e atuação improvisada. Com seu talento e persistência, conquistou o primeiro lugar na seleção, entre 500 candidatas, viajou para os Estados Unidos sozinha e atuou no filme A Floresta das Esmeraldas (The emeral forest, John Boorman, 1985).

De volta ao Brasil, sua carreira no cinema nacional deslanchou. Em 1987, aos 18 anos, saiu de Belém rumo ao Rio de Janeiro, onde se graduou em Filosofia e Artes Cênicas pela UNIRIO. O cinema brasileiro conheceu, por meio da atuação de Dira, personagens fortes e marcantes em filmes como Ele o boto (Walter Lima Jr., 1987), Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000), Amarelo manga (Cláudio Assis, 2002), Dois filhos de Francisco (Breno Silveira, 2004), A festa da menina morta (Matheus Nachtergaele, 2007), Estamos juntos (Toni Venturi, 2009), entre vários outros.

O sucesso nas telas de cinema levou à estreia em telenovelas em 1990 (Araponga), contratada pela TV Globo. Desde então, interpretou papéis memoráveis também nas telinhas, como Solineuza, em A Diarista (2004); Norminha, em Caminho das Índias (2009); e Beatriz, em Velho Chico (2016).

Mas o mais admirável na trajetória da atriz seja o fato de que ela não desvincula seu vasto trabalho no cinema, televisão e teatro de sua militância no Movimento dos Direitos Humanos. Ela dirige a ONG Movimento Humanos Direitos, criada por artistas para defender causas sociais e ambientais. Com ênfase no combate ao trabalho escravo e à exploração sexual infantil e na defesa da demarcação de terras indígenas e quilombolas, a organização explora o que os artistas têm de mais valioso: sua imagem pública. Seus ativistas sabem que, quando celebridades se envolvem em uma causa, atraem luz sobre situações que muitos prefeririam manter nas sombras.

Por ser uma das atrizes mais respeitadas e lembradas de sua época, no teatro, na TV e no cinema, e por aliar seu vasto legado no audiovisual brasileiro à militância social, política e cultural, a 17a Goiânia Mostra Curtas concede a Dira Paes esta homenagem.

 

Filmografia

 

  • Redemoinho (Jose Luiz Villamarim – a ser lançado)
  • Órfãos do Eldorado (Guilherme Coelho, 2015)
  • Mulheres no poder (Gustavo Acioli, 2015)
  • Saias (Gustavo Acioli, 2014)
  • Os amigos (Lina Chamie, 2012)
  • O segredo dos diamantes (Helvécio Ratton, 2012)
  • E aí… Comeu? (Felipe Joffily, 2012)
  • Até a vista (Jorge Furtado, 2011, curta-metragem)
  • A beira do caminho (Breno Silveira, 2010)
  • Ribeirinhos do asfalto (Jorane Castro, 2010, curta-metragem)
  • Estamos juntos (Toni Venturi, 2009)
  • Sudoeste (Eduardo Nunes, 2009)
  • Matinta (Fernando Segtowick, 2009, curta-metragem)
  • Esse homem vai morrer (Emilio Gallo, 2008)
  • Amazônia Caruana (Tizuka Yamasaki, 2008 – em finalização)
  • A festa da menina morta (Matheus Nachtergaele, 2007)
  • A Grande Família – O Filme (Maurício Farias, 2006)
  • Ó Paí Ó (Monique Gardenberg, 2006)
  • Baixio das bestas (Cláudio Assis, 2005)
  • Incuráveis (Gustavo Acioli, 2005)
  • Mulheres do Brasil (Malu de Martino, 2004)
  • Meu tio matou um cara (Jorge Furtado, 2004)
  • Dois filhos de Francisco (Breno Silveira, 2004)
  • Noite de São João (Sérgio Silva, 2003)
  • Amarelo manga (Cláudio Assis, 2002)
  • Lua Cambará (Rosemberg Cariry, 2002)
  • Vida e obra de Ramiro Rodrigues (Alvarina Sousa Silva, 2002)
  • Celeste & Estrela (Betse de Paula, 2002)
  • Maria Moura (Leilany Fernandes – em finalização)
  • O casamento de Louise (Betse de Paula, 2001)
  • Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000)
  • Lendas amazônicas (Ronaldo Passarinho Filho e Moisés
Magalhães, 1999)
  • Castro Alves – Retrato falado do poeta (Silvio Tendler, 1998)
  • Anahy de las Misiones (Sérgio Silva, 1997)
  • Corisco e Dadá (Rosemberg Cariry, 1996)
  • Obra do destino (Alvarina Souza Silva, 1994)
  • Corpo em delito (Nuno César de Abreu, 1990)
  • Land (David Wheatley, 1988 – BBC London)
  • Au bout du rouleau (Gilles Béhart, 1988 – TV Francesa)
  • Ele o boto (Walter Lima Jr., 1987)
  • The emeral forest (John Boorman, 1985)

 

Encerramento

 

Vincent Carelli

 

Cineasta, antropólogo e indigenista, Vincent Carelli fundou, em 1986, o Vídeo nas Aldeias, projeto que apoia as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais por meio da formação em audiovisual. Desde então, produziu uma série de 16 documentários sobre os métodos e resultados deste trabalho, que têm sido exibidos por televisões públicas em todo o mundo.

Filho de pai brasileiro e mãe francesa, Carelli nasceu em Paris, em 1953, e mudou-se para São Paulo aos cinco anos. Graduou-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo e desde 1973 está envolvido com projetos de apoio a grupos indígenas no Brasil. Foi indigenista da Fundação Nacional do Índio; jornalista e repórter fotográfico free-lancer das revistas Isto éRepórter Três e do jornal Movimento. Também atuou como editor fotográfico e pesquisador do projeto Povos Indígenas no Brasil do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI, sucedido pelo Instituto Socioambiental). No final de 1979, fundou, com um grupo de antropólogos, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), uma organização independente, sem fins lucrativos, destinada a apoiar projetos voltados aos indígenas. Foi Diretor do Programa de Índio da TV Universidade, em uma co-produção do CTI com a Universidade Federal do Mato Grosso. Toda essa bagagem se reflete na profundidade e relevância das pesquisas reveladas em sua filmografia.

A Arca dos Zo’é (1993), um de seus primeiros filmes, foi premiado em diversos festivais, entre eles o 16o Tokyo Video Festival e o Cinéma du Réel. Em 2009, Carelli lança Corumbiara, grande vencedor do 37o Festival de Gramado (entre outros prêmios), sobre o massacre de índios isolados em Rondônia, primeiro filme de uma trilogia em desenvolvimento que traz seu testemunho de casos emblemáticos vividos em 40 anos de indigenismo no Brasil. Martírio, filme consagrado que revela os percalços da luta pela demarcação das terras habitadas pelos Guarani-Kaiowá, é o segundo filme desta série, que se encerra com a realização do longa-metragem Adeus Capitão, trabalho em fase de desenvolvimento que narra a história do povo Gavião Parkatejê, que recuperou a autonomia política sobre seus territórios após quase serem extintos com a construção da hidrelétrica de Tucuruí e do complexo de minério de Carajás.

Com sua mulher, a antropóloga paulista Virgínia Valadão (1952 – 1998), iniciou o projeto Vídeo nas Aldeias, em 1986. Criado no âmbito do CTI, o projeto promoveu, ao longo de mais de vinte anos, o encontro dos indígenas com suas imagens, transformando o audiovisual em uma poderosa arma de expressão de suas identidades, perpetuação de suas memórias e culturas, além de um fundamental instrumento de denúncia. Além de formar e equipar diversas comunidades indígenas para o audiovisual, o Vídeo nas Aldeias estimulou a troca de informações e de imagens entre as nações, que discutiam juntas as maneiras de apresentar suas realidades para o mundo.

A trajetória de Vincent Carelli reflete a dedicação de toda uma vida ao audiovisual e às lutas indígenas no Brasil. Décadas de pesquisa, formação e aproximação com o Outro. Nas palavras de Jean-Claude Bernardet, “a filosofia da alteridade só começa quando o sujeito que emprega a palavra ‘outro’ aceita ser ele mesmo um ‘outro’ se o centro se deslocar, aceita ser um ‘outro’ para o ‘outro’. Carelli não só aceitou esse deslocamento com respeito e humildade, como se permitiu, tanto na esfera documental do cinema brasileiro e quanto na esfera pessoal do contato com diferentes nações indígenas, sair do centro (homem, branco, europeu) para que o Outro se tornasse o protagonista de sua própria história.

 

Filmografia

 

  • A festa da moça (diretor e diretor de fotografia, 18’, 1987)
  • Pemp (diretor, roteirista e diretor de fotografia, 27’, 1988)
  • Vídeo nas aldeias (diretor, roteirista e diretor de fotografia, 9’, 1989)
  • O espírito da TV (diretor e diretor de fotografia, 18’, 1990)
  • Qual é o jeito Zé? (co-diretor com Murilo Santos, diretor de fotografia e editor, 15’, 1990)
  • Ninguém come carvão (co-diretor com Murilo Santos, diretor de fotografia e editor, 15’, 1991)
  • Antonio Carelli (diretor e diretor de fotografia, 10’, 1991)
  • Mieko e Kimiko (diretor e diretor de fotografia, 14’, 1991)
  • Boca livre no Sararé (diretor e diretor de fotografia, 27’, 1992)
  • A arca dos Zo’é (co-diretor com Dominique Gallois e diretor de fotografia, 22’, 1993)
  • Eu já fui seu irmão (diretor e diretor de fotografia, 32’ 1993)
  • Antropofagia visual (diretor e diretor de fotografia, 17’, 1994)
  • Yãkwa, o banquete dos espíritos (diretor de fotografia, 54’, 1996)
  • Programa de índio, 1, 2, 3 e 4 (diretor e diretor de fotografia, série, 4 episódios, 26’ cada, 1995/1996)
  • Placa não fala (diretor e diretor de fotografia, 26’, 1996)
  • Segredos da mata (diretor e diretor de fotografia, 37’, 1998)
  • Ou vai ou racha (diretor e diretor de fotografia, 31’, 1998)
  • Índio na tevê (diretor e diretor de fotografia, 5 ́, 2000 – série, dez episódios)
  • Vídeo nas aldeias se apresenta (co-diretor com Mari Corrêa e diretor de fotografia, 33’, 2002)
  • Agenda 31 (co-diretor com Mari Corrêa e diretor de fotografia, 49’, 2003)
  • Jota Borges (diretor e diretor de fotografia, 12 ́, 2004)
  • Iauaretê, a cachoeira das onças (diretor e diretor de fotografia, 48’, 2006)
  • De volta à terra boa (diretor, 21 ́, 2008)
  • Filmando Manã Bai (diretor, 18 ́, 2008)
  • Uma escola Hunikui (co-diretor com Zezinho Yube, Ernesto de Carvalho e Mari Corrêa 3’, 2008)
  • Corumbiara (diretor e diretor de fotografia, 118 ́, 2009)
  • Cineastas indígenas (diretor 30’, 2010)
  • Peixe pequeno (diretor 3’, 2010)
  • Tava, a casa de pedra (co-diretor com Ariel Ortega, Patrícia Ferreira e Ernesto de Carvalho, 78’, 2012)
  • O mestre e o divino (produtor, 78’, 2013)
  • Martírio (diretor, roteirista, som direto, imagens, 162’, 2016)

 


Homenageados na Curta Mostra Especial
Os Índios e o Cinema

 

Coletivo Mbya-Guarani de Cinema

 

O Coletivo Mbya-Guarani, composto por realizadores Mbya, é fruto de anos de oficinas de formação do Vídeo nas Aldeias entre os Guarani Mbya, no Rio Grande de Sul. São jovens indígenas que abraçaram a linguagem audiovisual como forma de expressão artística e política, conjugando-as de forma poética e potente em uma intensa e continuada produção.

O belo Mokõi Tekoa Peteī JeguataDuas aldeias, uma caminhada (2008), dirigido por Germano Beñites, Ariel Ortega e Jorge Ramos Morinico, ganhador do prêmio de Melhor Filme do ForumDoc em Belo Horizonte, 2008, é o início dessa estrada profícua. Na sequência veio Nós e a Cidade (2009), pequeno filme de seis minutos de Ariel Ortega, sobre o mesmo material, seguido pelo fabuloso média-metragem Bicicletas de Nhanderu (2011), dirigido por Patrícia Ferreira e Ariel Ortega e fotografado por Jorge Morinoco, vencedor dos prêmios Cora Coralina – XIII FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental, Prêmio Melhor longa/média do III CachoeiraDoc e Menção Honrosa na Mostra Competitiva Nacional do Forumdoc.bh, em 2011. Mbya Mirim (2013) é também uma remontagem do material das Bicicletas de Nhanderu, centrado agora nos personagens de Palermo e Neneco, dois meninos que nos apresentam seu cotidiano na aldeia, para a coleção infantil de livros-filme Um Dia na Aldeia, feita em parceria entre o Vídeo nas Aldeias e a editora Cosac Naify. Ainda em 2011, Patrícia Ferreira e Ariel Ortega realizaram Desterro Guarani (Menção Honrosa no FICA) e em 2012 Tava, a casa de pedra, em parceria com Ernesto Ignacio de Carvalho e Vincent Carelli.

Quase dez anos depois do primeiro filme desta produção, podemos ver a singularidade nesta maneira coletiva e profundamente implicada de produzir. Seus filmes equilibram de maneira própria a elaboração da espiritualidade, a história e a experiência cotidiana dos Guarani. É com alegria que apresentamos nessa Mostra Especial da 17a Goiânia Mostra Curtas o último filme do Coletivo Mbya de Cinema – e o primeiro assinado coletivamente – Mario Reve Jeguata, No Caminho com Mario (2014).

 

 

Isael e Suely Maxakali

 

Isael e Suely Maxacali são uma dupla muito especial na produção de cinema indígena. Tendo sido o pontapé inicial de sua formação dado pela oficina ministrada pelo cineasta indígena Divino Tserewahú e produzida pela Associação Filmes de Quintal, (também responsável pelo Festival do Filme Documentário e Etnográfico ForumDoc.bh), eles mantém hoje uma das produções mais independentes e originais do país.

Graduado em Licenciatura Indígena pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Isael é professor e videomaker. Em seus filmes, nos revela aspectos da cultura tradicional dos Maxakali: suas histórias, cantos, cerimônias e rituais, bem como as escolhas que seu povo vem fazendo para viver em um mundo moderno. Sua esposa, Suely Maxakali, costuma desempenhar as funções de produtora, assistente de direção e fotógrafa still nas filmagens. Eles fazem parte do coletivo Pajé Filmes, iniciativa que reúne os povos indígenas de Minas Gerais Pataxó, Maxakali, Xacriabá e os Xucuru-Cariri da Bahia.

É deles filmes como Tatakox (2007, Prêmio Glauber Rocha do Forumdoc.bh 2008), Xokxop pet (2009), Yiax Kaax – Fim do Resguardo (2010), Kotkuphi (2011, Menção Honrosa no III Festival do Filme Etnográfico do Recife), Yãmîy (2011), Mîmãnãm (2011), Quando os yãmîy vêm cantar conosco (2012); e o intrigante Xupapoynãg (2011), que integra esta mostra e homenagem. Neste cinema, a fronteira entre o real e o transe se distende na medida em que a câmera procura pelos espíritos dos mortos e por seres sobrenaturais, em um esforço de revelação do sobrenatural, do invisível aos olhos. Seus filmes também conjugam a observação, a captura do acaso, do imprevisível de situações irrepetíveis, com a crença na intervenção, na atuação teatral, na repetição para aproximar-se de um ideal de representação.

Também integra a Curta Mostra Especial sua produção mais recente: Konãgxeka: o Dilúvio Maxakali (2016), uma bela animação dirigida por Isael em parceria com Charles Bicalho sobre o mito da água grande, feita com desenhos dos Maxakali da Aldeia Verde. (Menção Especial do Júri no Festival Iberoamericano de Cortometrajes ABC, Espanha, 2017, Menção Honrosa na Mostra SESC de Cinema, Belo Horizonte, 2017; Melhor filme de animação no VI Cinecipó, Belo Horizonte, 2016, Melhor filme no Festival Cine Memória, Belo Horizonte, 2016, Melhor Curta no Shortcutz Rio de Janeiro, 2016; Prêmio Povos Indígenas de Rondônia: Melhor Trilha Sonora, XIV Cineamazônia, 2016.) E que venham mais!


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