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Curta Mostra Especial – Os Índios e o Cinema


7 e 8 de outubro de 2017

A mostra especial da 17a Goiânia Mostra Curtas é dedicada ao que poderia ser chamado de cinema indígena, mas é sempre delicado classificar um cinema dito “de minoria”. Cinema indígena… o que seria isso? Um cinema feito exclusivamente por realizadores indígenas? Um cinema que se debruça sobre temáticas e questões indígenas? Um cinema feito, de uma certa maneira, com regras próprias, uma lógica particular “indígena”? Não, não parece existir um modo de fazer específico para o cinema indígena. Para além disso, as realidades indígenas são tão diversas como a vida, as temáticas são infinitas e muitos são os caminhos trilhados pelos realizadores e realizadoras, seu contato com o cinema (ou, em sentido inverso, de realizadores com o universo indígena) sua forma de apropriação dos recursos audiovisuais e suas finalidades. A própria noção de identidade indígena está muito além dos estereótipos desenhados.

Essa mostra faz então um apanhado de produções, com ênfase na última década, mesclando filmes feitos por realizadoras, realizadores e coletivos indígenas, filmes nascidos de parcerias entre indígenas e não indígenas, filmes fruto de oficinas de formação audiovisual – como as do programa Vídeo nas Aldeias, cuja relevância nesse campo é incontornável – e filmes feito por não indígenas que abraçaram suas lutas ou tiveram encontros significativos com indivíduos indígenas ou suas comunidades.

Durante a programação, dividida em duas sessões de aproximadamente uma hora e meia, veremos filmes de luta, festas e rituais, cenas do cotidiano e brincadeiras, filmes-denúncia. Vamos passear por aldeias xinguanas, acreanas, guaranis, maxacalis, por aldeias urbanas, iremos participar de acampamentos de pesca, despejos e retomadas, da saga de uma liderança indígena para se tornar vereador…  Veremos mitos contados ou encenados, uma animação.

Trata-se de um desafio e uma honra curar uma mostra complexa e instigante como esta. Temos consciência de que, nestas sessões complementares “Brincadeiras e Lutas” e “Os Poderes”, muito mais extensa é a quantidade de filmes, grupos e questões que ficam de fora do que as que integram este pequeno panorama, mas acreditamos que ele possa, ao menos, despertar a curiosidade do público para a diversidade, riqueza e dilemas desses povos, bem como para a latência e inventividade deste cinema – que são tantos – e que urge.

Curadoria de Rita Carelli – atriz, diretora e escritora

 

Programação

 7 out (sáb) – 14h

Homenagens

 

Coletivo Mbya-Guarani de Cinema

O Coletivo Mbya-Guarani, composto por realizadores Mbya, é fruto de anos de oficinas de formação do Vídeo nas Aldeias entre os Guarani Mbya, no Rio Grande de Sul. São jovens indígenas que abraçaram a linguagem audiovisual como forma de expressão artística e política, conjugando-as de forma poética e potente em uma intensa e continuada produção.

O belo Mokõi Tekoa Peteī Jeguata – Duas aldeias, uma caminhada (2008), dirigido por Germano Beñites, Ariel Ortega e Jorge Ramos Morinico, ganhador do prêmio de Melhor Filme do ForumDoc em Belo Horizonte, 2008, é o início dessa estrada profícua. Na sequência veio Nós e a Cidade (2009), pequeno filme de seis minutos de Ariel Ortega, sobre o mesmo material, seguido pelo fabuloso média-metragem Bicicletas de Nhanderu (2011), dirigido por Patrícia Ferreira e Ariel Ortega e fotografado por Jorge Morinoco, vencedor dos prêmios Cora Coralina – XIII FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental, Prêmio Melhor longa/média do III CachoeiraDoc e Menção Honrosa na Mostra Competitiva Nacional do Forumdoc.bh, em 2011. Mbya Mirim (2013) é também uma remontagem do material das Bicicletas de Nhanderu, centrado agora nos personagens de Palermo e Neneco, dois meninos que nos apresentam seu cotidiano na aldeia, para a coleção infantil de livros-filme Um Dia na Aldeia, feita em parceria entre o Vídeo nas Aldeias e a editora Cosac Naify. Ainda em 2011, Patrícia Ferreira e Ariel Ortega realizaram Desterro Guarani (Menção Honrosa no FICA) e em 2012 Tava, a casa de pedra, em parceria com Ernesto Ignacio de Carvalho e Vincent Carelli.

Quase dez anos depois do primeiro filme desta produção, podemos ver a singularidade nesta maneira coletiva e profundamente implicada de produzir. Seus filmes equilibram de maneira própria a elaboração da espiritualidade, a história e a experiência cotidiana dos Guarani. É com alegria que apresentamos nessa Mostra Especial da 17a Goiânia Mostra Curtas o último filme do Coletivo Mbya de Cinema – e o primeiro assinado coletivamente – Mario Reve JeguataNo Caminho com Mario (2014).

 

Isael e Suely Maxakali

Isael e Suely Maxacali são uma dupla muito especial na produção de cinema indígena. Tendo sido o pontapé inicial de sua formação dado pela oficina ministrada pelo cineasta indígena Divino Tserewahú e produzida pela Associação Filmes de Quintal, (também responsável pelo Festival do Filme Documentário e Etnográfico ForumDoc.bh), eles mantém hoje uma das produções mais independentes e originais do país.

Graduado em Licenciatura Indígena pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Isael é professor e videomaker. Em seus filmes, nos revela aspectos da cultura tradicional dos Maxakali: suas histórias, cantos, cerimônias e rituais, bem como as escolhas que seu povo vem fazendo para viver em um mundo moderno. Sua esposa, Suely Maxakali, costuma desempenhar as funções de produtora, assistente de direção e fotógrafa still nas filmagens. Eles fazem parte do coletivo Pajé Filmes, iniciativa que reúne os povos indígenas de Minas Gerais Pataxó, Maxakali, Xacriabá e os Xucuru-Cariri da Bahia.

É deles filmes como Tatakox (2007, Prêmio Glauber Rocha do Forumdoc.bh 2008), Xokxop pet (2009), Yiax Kaax – Fim do Resguardo (2010), Kotkuphi (2011, Menção Honrosa no III Festival do Filme Etnográfico do Recife), Yãmîy (2011), Mîmãnãm (2011), Quando os yãmîy vêm cantar conosco (2012); e o intrigante Xupapoynãg (2011), que integra esta mostra e homenagem. Neste cinema, a fronteira entre o real e o transe se distende na medida em que a câmera procura pelos espíritos dos mortos e por seres sobrenaturais, em um esforço de revelação do sobrenatural, do invisível aos olhos. Seus filmes também conjugam a observação, a captura do acaso, do imprevisível de situações irrepetíveis, com a crença na intervenção, na atuação teatral, na repetição para aproximar-se de um ideal de representação.

Também integra a Curta Mostra Especial sua produção mais recente: Konãgxeka: o Dilúvio Maxakali (2016), uma bela animação dirigida por Isael em parceria com Charles Bicalho sobre o mito da água grande, feita com desenhos dos Maxakali da Aldeia Verde. (Menção Especial do Júri no Festival Iberoamericano de Cortometrajes ABC, Espanha, 2017, Menção Honrosa na Mostra SESC de Cinema, Belo Horizonte, 2017; Melhor filme de animação no VI Cinecipó, Belo Horizonte, 2016, Melhor filme no Festival Cine Memória, Belo Horizonte, 2016, Melhor Curta no Shortcutz Rio de Janeiro, 2016; Prêmio Povos Indígenas de Rondônia: Melhor Trilha Sonora, XIV Cineamazônia, 2016.) E que venham mais!

 

Programa 1 – Brincadeiras e Lutas

Neste primeiro programa, brincaremos como crianças e lutaremos como gente grande, sem esquecer que em mundos povoados por tantos espíritos, histórias, heranças e injustiças, os adultos também brincam, as crianças também lutam.

No Caminho com Mário (PE) – 2014 – doc – 21min – Direção: Coletivo Mbya-Guarani de Cinema [Livre] (filme homenagem Coletivo Mbya)

A História do Monstro Khatpy (MT) – 2009 – fic – 4min – Direção: Coletivo Kisêdjê de Cinema [10 anos]

No Tempo do Verão (AC) – 2012 – doc – 22min – Direção: Wewito Piyâko [Livre]

Cordilheira de Amora II (MS) – 2015 – doc – 12min – Direção: Jamille Fortunato [Livre]

Prîara Jõ, Depois do Ovo, a Guerra (PE) – 2008 – doc – 15min – Direção: Komoi Panará [10 anos]

Yvy Katu – Terra Sagrada (MS) – 2007 – doc – 20min – Direção: Eduardo Duwe [Livre]

 

16h Debate – Modos de fazer e pensar um Cinema Indígena

Muitas são as maneiras de se pensar e fazer um cinema indígena. Nesse encontro, teremos a oportunidade de ouvir o que têm a dizer sobre o assunto pessoas com diferentes experiências e fazeres: realizadores indígenas independentes; o representante de um coletivo criado a partir de sua vivência com um trabalho de formação continuado; um realizador e curador não indígena que pauta sua produção no tema e parceria com os índios; e o cineasta e idealizador do Vídeo nas Aldeias, trabalho pioneiro na formação de cineastas indígenas. Este encontro sintetiza desta maneira a proposta da mostra, além de aprofundar a discussão sobre esse cinema e nos colocar em contato com diferentes agentes dele.

Isael Maxakali – realizador indígena (links para minibio e fotos)

Suely Maxakali – realizadora indígena

Ralf Ortega – integrante do Coletivo Mbya-Guarani de Cinema

Rodrigo Arajeju – cineasta e curador

Vincent Carelli – cineasta e indigenista

Rita Carelli – mediadora

 

8 out (dom) – 15h

Programa 2 – Os Poderes

Existem os poderes invisíveis, espirituais; o poder da resistência, da criação e existem os poderes do capital, da política, da justiça oficial. Os índios circulam, se articulam e estão sujeitos a todos eles.

Xupapoynãg (MG) – 2012 – doc – 15min– Direção: Isael Maxacali [Livre] (filme homenagem a Isael e Suely Maxakali)

Huni Meka, os Cantos do Cipó (AC) – 2006 – doc – 25min – Direção: Josias Maná Kaxinawá e Tadeu Siã Kaxinawá [Livre]

Zahy – Uma Fábula do Maracanã (RJ) – 2012 – exp – 5 min – Direção: Felipe Bragança [Livre]

Porcos Raivosos (PE) – 2012 – fic –10 min – Direção: Isabel Penoni e Leonardo Sette [16 anos]

Índios no Poder (DF) – 2015 – doc – 21min – Direção: Rodrigo Arajeju [10 anos]

Konãgxeka: O Dilúvio Maxacali (MG) – 2016 – ani – 13min – Direção: Charles Bicalho e Isael Maxacali [10 anos]

 


 

Local:

Teatro Goiânia: Avenida Tocantins com Avenida Anhanguera, Qd. 67 Lt. 32 Setor Central)


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