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Curta Mostra Especial


Gênero e Invenção: tornar-se mulher no cinema de curta-metragem contemporâneo

 

Uma pesquisa divulgada há pouco tempo pela Ancine tomando como base o ano de 2016, apresenta dados tão assustadores como previsíveis. O mercado cinematográfico brasileiro é majoritariamente branco e masculino: Dos 142 longas-metragens lançados no ano, nenhum foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. Do total de filmes comercializados, 75,4% foram dirigidos por homens brancos, 19,7% por mulheres brancas e 2,1% por homens negros. Homens assinam 85,2% da fotografia dos filmes, mulheres 7,7% e mistos 2,1%. Na direção de arte, homens são 59,2%, mulheres 5,6%. Apesar das mulheres serem 51,5% de população do país segundo o IBGE, elas representam 40% do elenco dos filmes. Essa disparidade também acontece com relação à presença de atores negros – apesar de representarem 54% da população, na tela do cinema são apenas 13,3%.

A mostra é composta por curtas realizados por pessoas que não se identificam como homens.  O escopo de cineastas aqui presentes alarga a definição de “mulher” e passa por uma desconstrução deste conceito. Começamos por uma crítica necessária à noção do feminino estabelecida a partir de narrativas de poder, “onde os homens atuam e as mulheres aparecem” (J.Berger); mas queremos ir além dela, pensando gênero como algo performativo e aberto à criação e agência (Judith Butler). Os filmes aqui reunidos não se conformam com uma definição de mulher estável e estereotipada e dão lugar a emergência de narrativas e subjetividades não previsíveis. Neste caso, não existe apenas uma mulher, existem múltiplas mulheres que não são objeto de contemplação do outro – sacralizadas, disciplinadas, controladas, maternais, fatais, frágeis, férteis ou naturais – mas invenções pautadas por si mesmas.

Os curtas que serão mostrados, cada um a sua maneira, refletem sobre mulheres ausentes na tradição cinematográfica dominante. São narrativas comprometidas com a construção de subjetividades dissidentes dos modelos dados pelo status quo. Escolhi para isso fazer um recorte temporal, concentrando-me na produção realizada a partir de 2013, escolhido como um ano chave na emergência de importantes debates políticos na agenda do país, entre eles os que tangem a condição feminina e as relações de gênero.

A mostra aborda a emergência de personagens fabuladas de uma perspectiva crítica a um modelo opressor que reproduz dinâmicas de poder a partir da oposição feminino-masculino. Diz a clássica frase de Simone de Beauvoir: Não se nasce mulher, torna-se mulher. Pois o foco do nosso olhar está no TORNAR-SE como ato performativo, uma visão de gênero essencializada e na direção de uma proposta que é política em sua abertura criativa.

Curadoria de Maíra Bühler  – diretora, roteirista e antropóloga.

 

Programação

A partir do conjunto de filmes apresentados neste programa dividido em duas partes, acompanhamos a desconstrução crítica de uma imagem de “mulher” estável e estereotipada dando lugar à emergências narrativas e subjetividades que colocam as relações de gênero em termos de performatividade.

 

6 out (sáb) – 14h

Homenagens

 

Yasmin Thayná

 

Yasmin Thayná  cresceu numa periferia semi-rural em Nova Iguaçu. Seu pai é porteiro, sua mãe empregada doméstica. Ela é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, plataforma criada para divulgar filmes dirigidos, protagonizados e produzidos por negros. É também curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias), pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro) e colaboradora do jornal NEXO. Dirigiu “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Seu trabalho é fundamental na construção de um imaginário dissidente sobre a mulher negra e os negros em geral no cinema brasileiro.

 

Juliana Vicente

 

Juliana Vicente é diretora, produtora e fundadora da Preta Portê Filmes.  Dirigiu o curta “Cores e Botas”, exibido mundialmente em mais de 50 festivais sobre uma menina negra que quer ser Paquita. Como diretora convidada, integrou o grupo do Berlinale Talents (2015), no Festival de Berlim, mesmo ano em que foi premiada com a coprodução “A Terra e a Sombra”, no Festival de Cannes. Em 2016 foi contemplada com o edital Rumos Itaú Cultural para a produção do filme “Diálogos com Ruth de Souza”, atualmente em produção, e desenvolve o roteiro de seu primeiro longa de ficção, “Cores de Maio”, contemplado no edital de Doctoring da Spcine e participante do BrLab 2017. Como produtora, realiza projetos com compromisso social e político, sempre atenta às questões urgentes do país, sobretudo das populações menos favorecidas.

 

Parte 1 

Criar, emancipar, denunciar. Não necessariamente nessa ordem.

Mini Miss (PE). Rachel Daisy Ellis. Doc. 2018. 16 min. [Livre]

Quem Matou Eloá? (SP). Lívia Perez. Doc. 2015. 22 min. [12 anos]

Sweet Heart (SP). Amina Jorge. 2018. 21 min. [14 anos]

Latifundio (RJ). Erica Sarmet. Fic. 2017. 12 min. [18 anos]

Estado Itinerante (MG). Ana Carolina Soares. Fic. 2016. 25 min. [Livre]

Trans*lucidx (PR). Miro Spinelli. Doc. 2014. 10 min. [14 anos]

 

Debate – 16h 

Gênero e Invenção no cinema: desafios de desconstrução e criação

Como a presença de cineastas que não se definem como homens ocupando as mais diversas funções no cinema, impacta a construção de novas narrativas e subjetividades? Como o cinema pode se abrir a novos caminhos não pautados por um olhal patriarcal, racista, heteronormativo e opressor?

Debatedoras

Silvana Nascimento – antropóloga, professora da USP, especialista em gênero

Ana Carolina Soares – cineasta, diretora do filme Estado Itinerante

Carol Rodrigues – diretora, roteirista, formada em Ciências Sociais – Unicamp

Julia Katharine – mulher transexual, atriz, roteirista e realizadora

Ceiça Ferreira – Professora da UEG, pesquisadora de raça e gênero no cinema

Mediação: Maíra Bühler – diretora e roteirista

 

7 out (dom) – 15h

Parte 2 

Denunciar, criar, emancipar. Não necessariamente nessa ordem.

A Boneca e o Silêncio (SP). Carol Rodrigues. Fic. 2015. 19 min. [14 anos]

K-Bela (RJ). Yasmin Thayná. 2015  23 min. [Livre]

Outras (SP). Ana Julia Travia. Doc. 2017. 22 min. [Livre]

Tailor (RJ). Calí dos Anjos. Doc-Animação. 2017. 10 min. [12 anos]

No Devagar Depressa dos Tempos (SP). Eliza Capai. Doc. 2014. 25 min. [Livre]

Peripatético (SP). Jéssica Queiroz. Fic, 2017. 15 min. [Livre]

 


 

Local:

Teatro Goiânia: Avenida Tocantins com Avenida Anhanguera, Qd. 67 Lt. 32 Setor Central)


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