Homenageadas


HOMENAGEM 19ª GOIÂNIA MOSTRA CURTAS E CURTA MOSTRA ESPECIAL “O AMOR E SUAS FORMAS”
8.out (ter) 20h – Cerimônia de Abertura

 

HELENA IGNEZ – ATRIZ E DIRETORA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1959, o curta experimental O Pátio, assinado pelo jovem realizador baiano Glauber Rocha, marcaria o início da trajetória artística de uma atriz que inventou uma nova forma de interpretação cinematográfica no país. Os movimentos sinuosos de Helena Ignez sobre um piso em forma de tabuleiro de xadrez, no filme de estreia deste que hoje é considerado nosso maior cineasta, não apenas representam a chegada do cinema moderno no Brasil, mas também anunciam o fim da empostação teatral consagrada pela escola de atores do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, então dominante em nossos palcos e telas. Algo que logo será confirmado por sua performance em O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, filme no qual, ao lado de Paulo José, ela irá estabelecer definitivamente um outro padrão de atuação no cinema brasileiro, sintonizado com a efervescência cultural e criativa dos anos 60.

Antes de protagonizar o clássico O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, filme que consolidou sua imagem como musa do cinema de invenção, Helena Ignez já havia comprovado seu talento em obras marcantes como A Grande Feira (1961), de Roberto Pires, O Assalto ao Trem Pagador (1961), de Roberto Farias, O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, Cara a Cara (1965), de Julio Bressane, e o já citado O Padre e a Moça (1966). No entanto, é preciso sublinhar que somente a impressionante galeria de personagens a que deu corpo em colaboração com Sganzerla – Janet Jane, Ângela Carne e Osso, Sônia Silk… – já desautoriza essa definição equivocada de Helena como “musa” de determinado diretor ou movimento. Afinal, uma musa não pensa, uma musa não cria, uma musa não tem autonomia, e isso é todo o contrário daquilo que Helena sempre imprimiu em cada um de seus trabalhos. A anti-musa por excelência, Helena Ignez é um corpo elétrico, em explosão criativa constante. Uma atriz dialética, na mais perfeita acepção do termo, como o mestre Bertolt Brecht lhe ensinou.

Em 2005, com o curta A Miss e o Dinossauro, no qual revisita o período breve e intensamente criativo da produtora Belair, Helena passa a dirigir seus próprios filmes, assumindo um protagonismo autoral que sempre esteve presente nas suas colaborações com outros realizadores, em especial em suas parcerias com Sganzerla e Bressane. Em 2007, assina seu primeiro longa, o brechtiano Canção de Baal, inventiva recriação de Baal, texto de estreia do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, uma de suas maiores influências intelectuais. A presença de Brecht volta a se manifestar, já no título, em Luz nas Trevas (2010), continuação de O Bandido da Luz Vermelha, sobre um roteiro inédito de Sganzerla, que morreu sem conseguir realizá-lo.

Quando muitos outros pensariam em se aposentar ou pelo menos diminuir seu ritmo de trabalho, Helena se lança num período de produção intensa. Faz teatro, assina filmes originalíssimos, irreverentes e politicamente engajados – Poder dos Afetos (2013), Ralé (2016), A Moça do Calendário (2017) –, e colabora tanto com uma série de jovens curta-metragistas quanto em longas de diretores mais experientes como Ricardo Miranda (Paixão e Virtude/2014) e Cristiano Burlan (Antes do Fim/2017), este ao lado de Jean-Claude Bernardet.

Em sua 19ª edição, a Goiânia Mostra Curtas reverencia, celebra e homenageia Helena Ignez, “a mulher da luz própria”, como tão bem sintetiza o título do belo documentário assinado por sua filha Sinai Sganzerla, que resgata o percurso pessoal e criativo desta artista imensa.

Biografia com informações de atriz em Teatro: Helena Ignez começou no teatro em 1960 em Salvador na antológica montagem de A Ópera dos Três Tostões de Bertolt Brecht dirigida por Martim Gonçalves com cenários de Lina Bo Bardi, com Eugenio Kusnet como protagonista. Trabalhou como atriz com alguns dos mais importantes diretores como Judith Malina, Ziembinski, Antônio Abujamra. Atuou em Os Sete Afluentes do Rio Ota, direção de Monique Gardenberg. Atuou em Vestido de Noiva e Pessoas Sublimes, em 2016, com Os Satyros, direção de Rodolfo Vázquez. Dirigiu Savannah Bay de Marguerite Duras e Cabaret Rimbaud – Uma Temporada no Inferno de sua autoria para o Festival de Artes em Barcelona. Em cinema dirigiu, entre outros filmes, Canção de Baal, vencedor do Prêmio de Melhor Filme pelo Júri da Crítica no Festival de Gramado 2009; Luz nas Trevas, Prêmio da Crítica Boccalino d’Oro de Melhor Filme no Festival de Cinema de Locarno e Ralé, vencedor do prêmio Melhor Direção no 23º Festival Mix Brasil em 2016. Seu último filme A Moça do Calendário, roteiro original de Rogério Sganzerla, recebeu o Grande Prêmio Femina Competição Nacional no Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino e recebeu os Prêmios do Público e Melhor Ator para André Guerreiro Lopes no 21º Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira. Helena recebeu homenagens em festivais como no 20º Fribourg International Film Festival, na Suíça, com a Mostra La Femme du Bandit, no 17º Kerala International Film Festival, na Índia, além de ter sido a homenageada de 2017 do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Filmografia

Fakir (Helena Ignez, 2019 )
A Moça do Calendário (Helena Ignez, 2017)
Ralé (Helena Ignez, 2015)
Ossos (Helena Ignez, 2014)
Poder dos Afetos (Helena Ignez, 2013)
Feio, Eu? (Helena Ignez, 2013)
Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (Helena Ignez, Ícaro C. Martins, 2010)
Canção de Baal (Helena Ignez, 2008)
A Miss e o Dinossauro – Bastidores da Belair 2005 (Helena Ignez, 2005)
Reinvenção da Rua (Helena Ignez, 2003)

 

 

HOMENAGEM CURTA MOSTRA ESPECIAL “O AMOR E SUAS FORMAS”
13.out (dom) 20h – Cerimônia de Encerramento

 

OLGA FUTEMMA – DIRETORA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chá Verde e Arroz (1989), curta-metragem dirigido por Olga Futemma, acompanha um projecionista ambulante que circula pelas comunidades japonesas no interior paulista, prática comum nas primeiras décadas do cinema. No filme, ele chega à cidade, organiza os detalhes da sessão com os moradores locais, compra uma correia nova para o projetor, exibe um filme com Setsuko Hara para uma comunidade de olhos atentos e corações abertos. Uma verdadeira declaração de amor ao cinema, as camadas desse gesto amoroso são muitas. Olga encena a fruição do espetáculo cinematográfico, reverencia o cinema de Ozu e a descoberta do cinema pelo olhar infantil. Atenta à história do cinema, interessa também recontar a tradição dos benshis – narradores japoneses do período silencioso – e dar contornos poéticos a todo o trabalho envolvido no percurso para um filme chegar até o olhar do seu público: o transporte de equipamentos, a divulgação das sessões, a sobrevivência em meio às intempéries.

No seu último curta, Olga Futemma parece fazer uma união formal entre a sua trajetória artística e profissional. O amor ao cinema pode ser muito mais amplo do que a cinefilia e se traduz também em uma atenção à materialidade dos filmes e na importância de historiar tradições. Em meados dos anos 1980, Olga já havia dirigido cinco curtas e montado vários outros, percurso iniciado nos seus anos como estudante na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em 1984, ingressa na Cinemateca Brasileira, instituição na qual se dedica ao trabalho de documentação, pesquisa e gestão cultural há mais de trinta anos. A Olga cineasta parece, em Chá Verde e Arroz, apontar para a Olga arquivista e gestora cultural, guardiã do cinema brasileiro, faceta da sua trajetória mais marcante quando o seu nome é evocado.

As questões femininas e feministas, em efervescente discussão nos anos 1970 e 1980, são também centrais no seu trabalho. Mergulhada no movimento sindicalista e nas greves do ABC Paulista, Olga filmou, durante a sua primeira gravidez, Trabalhadoras Metalúrgicas (1978) e registrou as dificuldades das mulheres operárias que reclamavam dos salários desiguais, da dupla jornada, da violência de gênero perpetrada pelos patrões, das péssimas condições de trabalho, da falta de creches. Retratos de Hideko (1981) acompanha quatro gerações de mulheres japonesas entre a rigidez de um ideal de mulher e os dilemas do dia a dia.

Como nossa homenageada da 19ª Goiânia Mostra Curtas, celebramos o longo percurso de Olga Futemma dedicado a uma instituição de salvaguarda de grande importância para o cinema brasileiro. Ressaltamos assim que o amor pelo cinema também se traduz no afinco à pesquisa do cinema brasileiro, um eterno desconhecido do público mais amplo, e que ainda necessita de muito cuidado, de autoras a serem historiadas, de filmes a serem descobertos. A segunda faceta da homenagem versa sobre a obra cinematográfica de uma diretora de enorme talento e que deu forma para questões que lhe atravessaram: a sua origem japonesa, a Okinawa de onde os seus pais imigraram, o bairro da Liberdade onde começou a gostar de cinema e a voz sobre a sua experiência como mulher. A sua trajetória sinaliza para a importância do curta- metragem para recontarmos uma história do cinema brasileiro que abarque um cinema que imprime uma voz feminina, mergulhado na sua experiência, assim como uma perspectiva que alia memória, história e as questões do presente.

Filmografia

1972 a 1976
Montagens de filmes como parte de atividades curriculares na Escola de Comunicações e Artes da USP: Os sete patamares, direção de Francisco Botelho Junior e Ella Durst. Corpo de baile, dos mesmos diretores.

Direção, produção executiva, montagem e texto:
Sob as pedras do chão (Bairro da Liberdade)

1976
Montagem:
Fim de semana, direção de Renato Tapajós.

1977
Assistência de direção:
Acidente de trabalho, dirigido por Renato Tapajós para o Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema.

1978
Codireção (com Renato Tapajós):
Trabalhadoras metalúrgicas, para o mesmo sindicato.

Montagem:
Um caso comum, direção de Renato Tapajós, para a Pastoral da Saúde, Zona Leste II.
Teatro operário, do mesmo diretor, produção da FUNARTE.

1979
Montagem:
A greve de março, direção de Renato Tapajós para a ABCD Sociedade Cultural / Oca
Cinematográfica.
Judas na passarela, direção de Roberto Santos.

1980
Montagem:
A luta do povo, direção de Renato

1981
Roteiro, direção e montagem:
Retratos de Hideko

1982-83
Organização de materiais, primeira montagem:
Linha de montagem, direção de Renato Tapajós, para o Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema. Longa-metragem, cor, 16mm.

1985
Roteiro e direção:
Hia Sa Sa – Hai Yah

1988
Roteiro e direção:
Chá verde e arroz

Roteiro e direção:
Caminho da memória
Caminho da memória – Depoimentos I e Caminho da memória – Depoimentos II para a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa.

 

 

Homenagem 19ª Goiânia Mostra Curtas – In memoriam

 

Edina Fujii – Empresária da área de cinema

 

Profissional do mercado cinematográfico desde os 18 anos, conhecida por seu trabalho na indústria audiovisual, reconhecida e responsável por ações que revolucionaram a produção nacional nessa área. Esta foi Edina Fujii, ou Dona Edina, como costumava carinhosamente ser chamada. Ela nos deixou em abril deste ano, mas sua história de dedicação ao cinema brasileiro continuará viva, graças ao seu pioneirismo na criação de seminários e oficinas de especialização técnica dentro dos diversos festivais de cinema do Brasil. Através de empresas do setor cinematográfico, também premiou vários filmes em muitos festivais do país.

Sempre foi uma mulher que acreditava no cinema nacional, com olhos voltados para os novos talentos e as produções realizadas fora do eixo. Na primeira edição da Goiânia Mostra Curtas, em 2001, a recebemos como parte do Júri Oficial e desde então ela tornou-se uma parceira assídua. Na segunda edição do evento, ela ofereceu a primeira premiação para os filmes vencedores, ato que se repetiria nos próximos anos e que ainda permanece até hoje, como forma de seu legado.

 Somos extremamente gratos à Edina Fujii, que acreditou na Goiânia Mostra Curtas quando o festival ainda era pequeno, mas potente, tendo como essência a democratização do cinema. Um festival estabelecido em Goiânia, no centro do Brasil, onde até então não existia um mercado firme e as políticas públicas eram inexistentes. Suas ações de fomento ao cinema brasileiro se multiplicaram pelo Brasil, em outros festivais e em outras empresas, que seguiram seu exemplo e compartilharam esse tão importante apoio a nossa ação.

Seguimos juntas todos esses anos, acreditando na força dos festivais de cinema como ferramenta para expansão e profissionalização do cinema brasileiro. Edina partiu, mas deixa sua trajetória de força, de luta, de mulher admirada por sua atuação, como norte para um cinema em constante construção, especialmente em um contexto atual tão frágil para a cultura.

Sem sua contribuição, o mercado audiovisual brasileiro não estaria no patamar que se encontra hoje e é por isso que a 19ª Goiânia Mostra Curtas presta esta homenagem ao seu legado e sua memória. Viva Edina Fujii, Dona Edina.


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