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Curta Mostra Brasil / 8 de outubro de 2011

Considerações Diluvianas

A chuva de ontem, sábado, derramou entre as avenidas não só águas e granizos, mas também um enorme número de árvores. Pelas estatísticas, ninguém saiu ferido, mas o prejuízo foi enorme. Eu, por exemplo, tive o meu carro (um Chevette Hatch de 1983, herança de família) escalpelado pela silhueta esguia de um jacarandá-mimoso. Essa árvore linda, de flores arroxeadas, muito apreciada pelos entusiastas da natureza, transformou em ruína a minha única propriedade. Jamais olharei uma árvore florida com a mesma admiração. Mas ok. Perde-se aqui, ganha-se ali. Contei a catástrofe para justificar a minha ausência na primeira sessão, de forma que não será possível comentar os filmes que aí estiveram.

Então, vamos lá.


A felicidade dos peixes (PB) – vídeo – fic – 25 – 2011. Direção: Arthur Lins

É ótima a cena onde o protagonista-catatônico mastiga o macarrão chinês enquanto na televisão assiste (com profunda indiferença) ao noticiário que anuncia a catástrofe na região Serrana do Rio de Janeiro: em São José do Vale do Rio Preto a casa de Tom Jobim foi inteiramente destruída. Em entrevista, Daniel Jobim, neto do compositor, comenta que nessa casa Tom escreveu “águas de março”, cuja letra antecipa o apocalipse: “é a chuva chovendo, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama”. A felicidade é por aí.


Ovos de dinossauro na sala de estar (PR) – doc – vídeo – 12 – 2011. Direção: Rafael Urban

Quando o carro não for seu e você receber um convite gentil, não se esparrame para trás como na cadeira do laringologista. Sente-se com parcimônia”. Pensei nisso agora, à toa. Deixa pra lá.

Além desse pensamento desconectado, pensei também que a morte do presidente Kennedy fez bem não só para Jacqueline, que se casou com o maravilhoso Aristóteles Sócrates Onassis (o nome já é quase um compêndio de filosofia), mas também para Guido Borgomanero que, para consolar a sentimental Ragnhild (pesarosa pela morte do bonitão), apertou-a nos braços e lhe fez um cafuné. Esse instante durou 42 anos.


Um outro ensaio (RJ) – fic – vídeo – 15 – 2010. Direção: Natara Ney

A música que abre o filme, “bonita de céu e pedra”, do pernambucano Junio Barreto, é uma faísca que embriaga o coração. Funciona muito bem ali onde está. Aliás, as músicas foram estrategicamente bem escolhidas e compõem a sintonia perfeita que embala o filme até o final. Suave, suave. Um balé apaixonado executado numa bolha de espuma.


Traz outro amigo também (RS) – fic – vídeo – 14 – 2010. Direção: Frederico Cabral

Criativo, simpático, divertido-demais. “Traz outro amigo também” nos atenta para que ainda existe em nós aquela antiga e já muito esquecida faculdade de imaginar. E que as crianças são peritas nessa alucinação. Ninguém precisa de haxixe pra ficar doidão. Basta ter uma criança em casa. Ou uma criança dentro de si mesmo.


* * *

É isso, galera. Agora o Brèsil aguarda a festa de encerramento do Goiânia Mostra Curtas, com odaliscas libanesas, arak (muito arak!!), quibe cru, babaganuche, falafel, pistache, amêndoas de ouro. A partir das 20h, lá onde “os deuses usam coroas de louros e são lindos e sussurram mistérios, enquanto dançam requebrando ao som de tambores tocados por adolescentes nus” (Jorge Mautner). 


Escrito por Narjara Medeiros

Postado às 18:51


Curta Mostra Brasil / 7 de outubro de 2011

Calma Monga, Calma! (PE) – fic – 35mm – 18’ – 2011. Direção: Petrônio Freire de Lorena

A performance logo na apresentação do filme, protagonizada pelo diretor Petrônio Freire de Lorena e o seu séquito de monstros (a pernambucana La Ursa e o famigerado Tony Ramos) antecipou o estrondo que viria no final: um terremoto escala 100. “Calma Monga, Calma!” É um filme divertidíssimo, tanto pelo grotesco-fantástico quanto pela inventividade em utilizar a realidade em favor da ficção. O programa Samir Abou Hana é outro espetáculo de humor-lisérgico-pastélico-diabalesco, onde filosofia-tropicalista, taxidermia, política e primatologia se unem para esclarecer o enigma peludo que circunda a vida de Monga. No meio de toda essa macumba-dadaísta a trilha sonora completa a magia: Dio Como Te Amo e Tu Me Acostumbraste, duas ternurinhas musicais que amolecem o coração de qualquer desiludido.


Cão (SP) – fic – 35mm – 19’ – 2011. Direção: Iris Junges

O filme não acontece. Não se desenvolve. Existe nele uma atmosfera profundamente elaborada e que possui, como pilar, dois elementos de tragédia: tensão e melancolia. De forma sutil, lentamente, essa atmosfera se desenrola e domina o filme. Mas a história não acompanha, se perde em qualquer-lugar-qualquer-coisa. No próximo filme, se Iris Junges acertar no enredo, o resultado será um acontecimento exótico e enigmático.


Trocam-se bolinhos por histórias de vida (RS) – fic – vídeo – 15’ – 2010. Direção: Denise Marchi

O filme parece um comercial de margarina demorado. Cortes velozes, cores suaves. Uma tristeza de mentirinha e muita alegria. E aquela purpurinazinha escondida atrás dos olhos de cada ator. Mesmo assim é carismático. Os pré-adolescentes e toda essa modinha-fofura-eterna (Emos e adjacências) vão adorar. E os viciados em açúcar também.


Satélite Bolinha (RJ) – doc – vídeo – 9’ – 2010. Direção: Bruno Vianna

O Satélite Bolinha apareceu. O Bruno Vianna apareceu. O Fernandinho Beira Mar apareceu. Tudo certo.


Julie, Agosto, Setembro (GO) – fic – vídeo – 8’ – 2011. Direção: Jarleo Barbosa

Licor de buriti + champanhe brut geladíssimo + 2 gostas de angostura; servir em taça flûte, com enormes amoras submersas y subversivas. Na vitrola o Gainsbourg cantarolando “l'hippopodame”. Na parede o ar-condicionado no volume-super-alto ou o ventilador de 30 metros rodando sem parar. Essas coisas juntas traduzem simbolicamente a sensação desse filme-delicinha.


Oma (SP) – doc – vídeo – 22’ – 2011. Direção: Michael Wahrmann

Eu ri muito, sem o menor sentimento de culpa (não fui batizada, portanto a única ligação que tenho com o cristianismo é a adoração pelo ouro e pelo dinheiro). Os velhos são naturalmente engraçados. Porque ajeitam os pés no precipício de uma forma sabiamente poética. São equilibristas da natureza, sempre rezando para não cair.


A peruca de Aquiles (RJ) – fic – vídeo – 15’ – 2010. Direção: Paulo Tiefenthaler

Desperta no espectador aquela tensão e angustia comuns às grandes obras de suspense. Depois do tiro que não vem, o discurso de Ajax sabiamente embala a expectativa do espectador (esperançoso que o ator não desencarne naquela selva de pedras). Vale atentar para a excelente interpretação-cagaço de Lúcio André, e vale atentar também para o enorme nariz de Paula San Martin, que graciosamente se transforma também em personagem (o terceiro, na tríade-pablo-escobar). As grandes mulheres possuem grandes narizes. Vide Maria Callas. 


Escrito por Narjara Medeiros

Postado às 17:54


Curta Mostra Brasil / 6 de outubro de 2011

Náufrago (SP) – fic – 35mm – 15’ – 2010. Direção: Gabriela Amaral e Matheus Rocha


Náufrago é um filme completo. Consegue harmonizar elementos estranhos :uma velha estilo fom-fom, uma cama engolidora de idosos, uma doméstica com cara de garatuja, papeis de parede azulados, peixes, música de ginastica e a morte. Formando, assim, uma unidade redondamente perfeita. E a morte deve ser mesmo isso; um desaparecimento sem justificativa, um esconderijo impossível de ser decifrado.



2 e meio (ES) – fic – 35mm – 18’ – 2010. Direção: Alexandre Serafini

Othoniel Cibien, o moçoilo que compra o próprio carro roubado pelos módicos 2 e meio (R$), será sem dúvida (no futuro quando as pessoas envelhecem e são devidamente reconhecidas) um dos grandes atores brasileiros, como Paulo José, Walmor Chagas, Milton Gonçalves. Ele consegue atingir o patamar que elenca os atores mortais para o pórtico dos imortais: traduzir através dos olhos as emoções que circulam dentro do personagem. O ator, o bom ator, constrói o personagem também por dentro. E Cibien é perito em cavoucar sangue e artérias.

Uma pergunta: depois de recuperada a paraty, será que Hernani volta para sua casa? Para mergulhar virtualmente na piscina de sódia cáustica? Porque, convenhamos, deveria apertar o acelerador e pegar uma brisa na costa do Espírito Santo. Uma mulher como a sua é capaz de castrar, somente com reclamações, sem usar o machado, até o membro de Príapo.


L (SP) – fic – 35mm – 21’ – 2011. Direção: Thais Fujinaga

A loucura e a perversão se realizam, em sua forma perfeita, nas crianças. E “L” rabisca com lirismo e criatividade essa fórmula que tempera dia a dia a conta dos psicanalistas. A cena com snorkel na banheira resgata um pedacinho daquela já constatada loucurinha-infantil: a ruiva malvadinha mergulha o peixe no cloro citadino, o peixe morre e a criança chinesa diz com água na boca “a gente pode fritar e comer”. É isso mesmo. O cérebro humano ficou maior quando o homem descobriu que podia matar os animais, fritar e comer.


Braxília (DF) – doc – 35mm – 17’ – 2010. Direção: Danyella Proença

O interessante do documentário é descobrir e conhecer Nicola Behr (aliás, grande poeta). Nicola sobrevive sem o documentário, mas o documentário não sobrevive sem Nicola. É um documentário careta, sem ousadia. Aquela máxima que sempre nos acompanha: “tudo é bom e ruim ao mesmo tempo”. O poeta cavoucando a terra com trajes de passeio é tão terrível quanto um camponês analfabeto escrevendo poesia numa pedra de gelo. A Braxília nicolaniana (essa Brasília que às vezes acontece, “uma cidade inventada dentro de uma cidade”, a utopia de transformar Brasília em bosque com odaliscas e jasmins) me fez lembrar o tango Youkali, de Kurt Weill e Roger Farney (a propósito, maravilhosamente interpretado no bis de Cida Moreira, no show de abertura). Youkali é uma terra onde as fadas se banham em cachoeiras de absinto, lagos flutuantes, onde os prazeres são realizados e os amores compartilhados. Estilo o paraíso do Corão, só que com mais tempero. Uma putaria do bem. E a música termina assim: “mais c'est un rêve, une folie/ Il n'y a pas de Youkali”. (Que quer dizer: Youkali não existe, negão. Saia e vá se refrescar na piscina do playground).


Jiboia(SP) – fic – 35mm – 18’ – 2011. Direção: Rafael Lessa

Maravilhosão. Gilda Nomacce e Gabriela Vergani formam o duo perfídia-barbitúricos-alucinação-total. Talentosas, bonitonas, e mais um monte de adjetivos para a turma acima dos 21 anos. Embaladas por uma interpretação deliciosa de Molambo, seguida do “total eclipse do amor”, as bailarinas da loucura nos oferecem um circo de solei satánico cheio de sabor. Muito sangue, muito amor, muita loucura.


Máscara Negra (SP) – fic – 35mm – 15’ – 2011. Direção: Rene Brasil

Gostei muito. Muito mesmo.


Mañana c'est carnaval (GO) – fic – vídeo – 19’ – 2011. Direção: Alyne Fratari

Fernando Pessoa, Arrigo Barnabé, um vestido de noiva manchado de sangue, um cisne negro na porta da igreja. Desfoques. Lágrimas. Cachaça. Uma bela mulher urinando num arranjo de camélias. Maluquinho, mas bem bonito. "Shadow of your smile", neném.  


Ser Tão Cinzento (BA) – doc – vídeo – 25’ – 2011. Direção: Henrique Dantas

Bom também. A utilização inventiva das cenas de “Manhã Cinzenta”, de Olney São Paulo conferem ao filme um charme especial.


Imperfeito (DF) – fic – vídeo – 14’ – 2011. Direção: Gui Campos

Amorzinho chatinho esse do “imperfeito”. Ainda bem que não deu certo.


Céu, Inferno e Outras partes do Corpo (RS) – ani – vídeo – 7’ – 2011. Direção: Rodrigo John


O cachorro é abandonado pela cadela-ruiva-gostosa-pra-cacete. “Milhões de diabinhos martelando / o meu pobre coração que agonizado / já não podia mais de tanta dor”. O homem não sabe o que fazer na solidão. Sem mulher, sem amor, sem afeto, cérebro e coração vão habitar o freezer e a latrina (respectivamente). 


Satélite Bolinha (RJ) – doc – vídeo – 9’ – 2010. Direção: Bruno Vianna

Uma manifestação alienígena surrupiou o som e a imagem desse Satélite Bolinha tão aguardado. O filme não aconteceu. As vozes que corriam pelos corredores versavam sobre a projeção de uma enorme luz verde-mandinga no céu do cerrado, pontos incandescentes foram vistos circulando no telhando do Teatro Goiânia: deu um Bug na Matrix. O diretor, Bruno Vianna, até agora também não foi encontrado.


Adormecidos (MG) – exp – vídeo – 6’ – 2011. Direção: Clarissa Campolina

Eu estava dormindo nesse momento.


Raimundo dos queijos (CE) – doc – vídeo – 16’ – 2011. Direção: Victor Furtado

Nesse momento eu também estava dormindo (ali mesmo, na poltrona do Teatro Goiânia).  


Escrito por Narjara Medeiros

Postado às 14:04


Curta Mostra Brasil / 5 de outubro de 2011

Considerações Gerais

Considero o curta-metragem um fragmento e, como diz Friedrich Schlegel "um fragmento tem de ser, igual a uma pequena obra de arte, totalmente separado do mundo circundante e perfeito em si mesmo como um porco-espinho". Isso diz tudo. Schlegel, que não conheceu o cinema, anteviu o curta-metragem. Seguindo essa onda, escreverei textos curtos, não tão perfeitos em si mesmo, e talvez tão singelos quanto um porco-espinho. Não tenho nenhuma relação com a crítica de cinema, aliás, com crítica nenhuma. Uma vez que se conhece um crítico, se conhece o avesso de qualquer coisa. O crítico é a ideia exata sobre o que uma COISA NÃO É. Pois a arte se encerra nela mesma. Enfim, os críticos são necessários, assim como são necessárias as paixões e as doenças. Dessa forma, os textos de minha autoria não pretendem a verdade, o rigor, ou qualquer coisa nessa direção. São exercícios de admiração ou aborrecimento, e só.


Matinta (PA) – fic – 35mm – 20’ – 2010. Direção: Fernando Segtowick

É conhecimento geral que as bruxas adoram as florestas. E a Amazônia é o lugar perfeito para a sacaca brasileira. Encontram-se aí todos os elementos que figuram nos manuais de bruxaria universal (sapo, lama, gordura de morcego, cobras de todas as espécies, pelo de onça-pintada). Matinta, conhecido Matinta-Pereira, segundo nos informa Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, também é “uma modalidade do mito do Saci-pererê, na sua forma ornitomórfica. O Matinta não é, realmente, uma coruja, mas um cuculida”. A Matinta do filme de Segtowick é mais interessante que o cuculida do Câmara Cascudo, sem dúvida nenhuma. Dira Paes, eterna musa-brasileira, completa a mandiga com o maravilhoso Adriano Barroso, ator e co-diretor. Vale ressaltar as cenas noturnas, com a fotografia realizada através de pequenos archotes ou velas, estrategicamente acomodados.

O plantador de quiabos (SP) – fic – 35mm – 15’ – 2010. Direção: Coletivo Santa Madeira

Filme bonito-demais. A tríade papai-mamãe-filhinha se realiza maravilhosamente bem na encarnação dos atores escolhidos. Uma pausa aqui: os gordos são seres inventados para o cinema. São trágicos ou cômicos ou os dois. Mas nunca, nunca, são neutros. Então é uma fórmula que vai dar certo. Um gordo e o seu filme será bom. Talvez não seja maravilhoso, mas seguramente será bom. Na tríade a gorda é a mãe, aliás muito bem representada no papel de mulher de um plantador de quiabos. A propósito, a flor do quiabo é um desses libelos que a natureza fez para encantar os olhos dos apaixonados.


A dama do Peixoto (RJ) – doc – 35mm – 11’ – 2011. Direção: Douglas Soares e Allan Ribeiro

Interessante a apresentação da personagem-título somente no final, estratégia que atiça uma ansiedadezinha no espectador. Quem é essa mendiga-madame? Aparentemente um contra senso, mas o mundo nos surpreende dia a dia, e Elizete Regina Alvarez é mesmo uma Catarina de Médici com cutículas afiadas. Aliás, uma de suas obsessões: FAZER as unhas TODOS OS DIAS. Os entrevistados, que ao longo da história – e somente através do OFF – descortinam as características da nossa dama do peixoto, também se mostram bastante curiosos com a sua figura, pois ninguém sabe quais motivos levaram uma loira aristocrata a sentar na latrina dos pombos. Muitas histórias contam os entrevistados, alguns elogiam Elizete, outros comentam o seu tabagismo e todos comungam o mistério e as dúvidas que pululam em torno dela. Uma das entrevistadas, discorrendo sobre a vaidade de Elizete, diz que “seu cabelo é melhor do que o da Xuxa (com todo o dinheiro que a Xuxa tem)”. Mas a Xuxa não tem aquele olhar curiosamente penetrante e curiosamente sedutor que tem Elizete.


Passeio de família (SP) – fic – 35mm – 9’ – 2010. Direção: Maria Clara Escobar

Duas crianças rodando são dois universos que se configuram. Uma delas não gosta da sensação delirium tremens que é o resultado de rodar, a outra encontra aí o sentido da alegria, o sentido vivo de todas as coisas. É por aí.

Meu medo (PR) – ani – 35mm – 11’ – 2010. Direção:   Murilo Hauser

Nesse momento eu saí para tomar uma cerveja. Infelizmente, ou felizmente, a ingestão do líquido-delírio-amarelo durou exatamente onze minutos.


Caos (SP) – exp – 35mm – 15’ – 2010. Direção: Fábio Baldo

O sol é perfulgente. O caos é perfulgente. Uma coisa bonita mas que você não entende. Falta desespero e desemparo na expressão dos atores. Da forma como estão, ficariam bem em uma disputa de boliche num shopping de cidade. Mas não no imenso deserto que é a solidão ou a morte. Independente disso, o filme se segura em outros pontos. Longe de ser um filme ruim, “Caos” é um filme entre uma coisa e outra. Mas eu não sei que coisa é essa “coisa” e tampouco que adjetivo poderia substituir o termo “outra”. A propósito, os atores Adriano Barroso (Matinta) e o plantador de quiabos formariam a dupla perfeita nesse Caos-arrumadinho.


Cachoeira (AM) – fic – 35mm – 14’– 2010. Direção: Sérgio Andrade

Os atores são lindos (homens e mulheres). Uma beleza exótica, tropicalista, sedutora, maravilhosa. Eu tomaria fácil-fácil aquela bebida da morte, e morreria saborosamente nos braços de uma cachoeira bem brasileira. Axé.


Marambé (MG) – fic – vídeo – 21’ – 2011. Direção: Fernanda Salgado

Lembrei da Caverna de Platão. Onde as pessoas viviam acorrentadas observando o mundo através das sombras projetadas na parede (onde nenhuma verdade existia, apenas simulacros). Se alguém conseguisse se libertar das correntes, o que viria fora da caverna? Um projetor? Marambé? Um palhaço moribundo? Um peixe caolho? Talvez os quatro. Talvez nenhum. As cenas das projeções no tecido colorido são o ponto alto do filme.


Sobre o menino do rio (RJ) – fic – vídeo – 13’ – 2011. Direção: Felipe Joffily

O Rio de Janeiro, o Morro Dois Irmãos e Silvia Buarque, formam uma tríade não tão forte quanto a tríade cristã, mas equivalente. E o filme é emocionante, dá aquela sensação apertada na garganta. Ou vontade de chorar mesmo. Suave, tranquilão. Nas Olimpíadas aconselho andarem com coletes a prova de balas, para que outros meninos e meninas do Rio não fiquem saudosos do primeiro beijo.


Entre Vãos (DF) – doc – vídeo – 20’ – 2010. Direção: Luísa Caetano

A primeira Gymnopedie, composta por Erik Satie, é uma música chiclete-sabor-delicioso. Prega e não sai. E funciona sempre. Se você usar a first Gymnopedie como trilha para a Batalha de Waterloo, será possível chorar vendo baionetas disparadas sem pudor. Ou se usá-la para embalar a cópula dos vampiros ou o vôo do besouro-verde, terá o mesmo efeito. Emociona, sempre. “Entre Vãos” também emociona, por causa das kalunguinhas e da Gymnopedie nº 1. As kalunguinhas - que agora infelizmente não me recordo o nome, são simpáticas demais. A mais velha é a filósofa do bando, cujas reflexões funcionam mais que muitos tratados de filosofia, tanto pela singeleza e sinceridade quanto pela magia poética.


Qual queijo você quer? (SC) – fic – vídeo – 11’ – 2011. Direção: Cíntia Domit Bittar

Perfeita harmonia entre os atores (aliás, excelentes atores). Os diálogos simples e afiados temperam a desenvoltura do roteiro. Tudo soa bem nesse “qual queijo você quer?”. Apenas me queixo dos cortes bruscos, velozes, que não diminuem a qualidade do filme, mas que deixam o espectador (eu) com uma sensaçãozinha de labirintite.


Oferenda (PB) – doc – vídeo – 17’ – 2011. Direção: Ana Bárbara Ramos

Os créditos finais são ótimos, criativos, bonitos-demais. Uma pena que raramente aparece algum filme criativo também nessa parte, geralmente esquecida. Agora uma pergunta: o CD foi mesmo PRA DENTRO DO MAR? Porque não pode, né?! As tartarugas marinhas morrem porque comem essas oferendas tecnológicas-plastico-inorganicas. Mas talvez Iemanjá intervenha nessa parte, se tratando se uma oferenda. Vai saber.

Escrito por Narjara Medeiros

Postado às 12:32


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