Curta Mostra Especial


CURTA MOSTRA ESPECIAL: RASTEIRAS IMAGINÁRIAS

Além das mostras permanentes, todos os anos a GMC traz a Curta Mostra Especial, apresentando um sentimento, um momento histórico, reflexões ou uma forma de expressar contextos através da temática escolhida e de seus filmes. Mostra não competitiva de curadoria própria.

Os filmes estarão disponíveis à partir de 6 de julho (quarta) às 15h, até 10 de julho (domingo).

Talita Arruda e Melina Bomfim – CURADORAS

Rasteiras Imaginárias

A Curta Mostra Especial convoca dois programas, somando 13 filmes de atmosferas distintas, entre 2009 e 2022. No primeiro programa: Incensar o mundo, desejo atravessa o desassossego cotidiano. Rasteiras não óbvias, imagens que operam alma lúdica e simbólica como sobremesa à indigestão desse país-história. Partindo de um desejo nutrido entre fabulações, encontros e deboche, chegamos a outros choques que revestem o imaginário em experiências, territórios e subjetividades sob confronto, (no) sampler dos gestos íntimos: o segundo programa. Sonho que encontra sub-versão.

Segue uma conversa feita de costuras de fragmentos fílmicos de Òrun Àiyé (Jamile Coelho e Cintia Maria, BA, 2015) , Deus (Vinícius Silva, SP, 2017), 5 fitas (Heraldo de Deus e Vilma Carla Martins, BA, 2020), Bia Desenha – Anjo de Jambo (Kalor Pacheco e Neco Tabosa, PE, 2019), Ilhas de Calor (Ulisses Arthur, AL, 2019), Pietà (Pink Molotov, MG, 2020) e Movimento (Gabriel Martins, MG, 2020). Senta aí, que eu vou te contar uma história. Uma história muito, muito antiga. Te conto, porque como diria Mãe Stella de Oxóssi “o que não se registra, o vento leva”.

Quando pequena vi Deus, e Deus era uma mulher preta.

Ela voava numa nave espacial doirada, com forro de lamê rosa, e tinha o poder da madrepotência. Com este poder ela criava mundos, mundos negros livres, e eles eram vários: bialáctea, teteláctea, pedroláctea, rafaeláctea, e muitos outros.

Nestes mundos os sonhos eram sempre fresquinhos, as pessoas podiam ser suas próprias representações, se permitiam agir, e se alimentavam com azeitocas.

Todes que lá viviam, podiam ir e vir livremente, para onde quisessem: pro jardim rosa, pra ilha de calor, ou até mesmo para Wakanda. E seja lá onde estivessem, elas estavam vivas. 

Lá os tambores tocavam o batidão dos orixás, embalando a conversa da tecnologia com a ancestralidade.

Juntas, elas gingavam, rebolavam e ocupavam espaços com o direito à memória, à história, e à subjetividade.

Em suas aventuras, esquivavam-se de várias cabulosidades. Lutavam com espadas-vassouras, tirando de lá toda e qualquer intolerância religiosa, fascismo, homofobia e racismo. 

E nos seus movimentos contínuos, dançavam com as mãos, com os sons, com as águas, com os ventos, com as plantas, com os animais, consigo mesmas e com o invisível.

E se viessem a se chatear com os caminhos e rumos de mundos como o Brasil, onde nada tava fácil, eles botavam um som do Edson Marley, para que as pessoas de lá continuassem sonhando com o dia de amanhã.

Quem nos conta essa história de respeito à tradição, às mais velhas e às mais novas foram muitas, e elas deixam saudades: Professor Ubiratan, Nilson Mendes, Professora Eliza, Professora Angélica, vó Conceição e tantes outres.

Na sequência, outras rasteiras; (no) sampler dos gestos íntimos, de uma intimidade ora supressão na história, ora rasura e minúcia como linguagem do corpo negro. A irreverência de Pode me chamar de Nadí (Déo Cardoso, CE, 2009) que abre a sessão, em perspicácia, vai e volta, reelabora com e na rua os olhares, os desafios e nos ensina sobre dribles e as pernadas de uma menina negra em desencontros hostis. Emoldura o segundo programa de seis filmes na outra ponta com Não vim no mundo pra ser pedra (Fábio Rodrigues, BA, 2021). Grande Otelo sob cantiga que ressoa enquanto sua imagem de arquivo é repensada, refeita, e o enfoque se detém no gesto ao convocar a história, nos dedos a memória. Ela abre as cortinas de Otelo, recriação por vestígios. O olho nas mãos de quem desconfia da oficialidade das imagens.

Já o artesanal em Boa noite, Charles (Irmãos Carvalho, RJ, 2016) preenche de cola, tesoura, papelão, martelo, prego e mais detalhes minimamente arquitetados, enquanto cenário que rompe, comédia, tensão, guerra e persistência no fazer fílmico: quem faz entrelaça a vida. A trilha fabricada vira mantra e alerta: “não me chame de imaginação, eu tenho sangue na veia e você na mão”, que encontra outro mantra em Grace Passô e Wilssa Esser, reverberando grito interno e supra sonoro. Em O segundo antes da coragem, Experimento 1, sua sonoridade contínua nos ajuda a respirar debaixo d’água. Como descrever uma experiência intensa sempre em digestão? Silêncio-ruído: a potência da vibração como a atenção ao gesto de Otelo. Ele nos diz que na tragédia existe uma anedota. Criar, construir, em cima da falha, da memória.

Reordenados, os fragmentos das memórias, imagens de arquivos, em Do Alvo ao Papoco (Durango, CE, 2022) revelam conto de bairro que todavia seria esquecido como etapa da agressão de todo dia. Baile que persiste em política do cotidiano. Não oblitera realidades violentas, ontem e hoje. Escrito nos corpos. Não se entretém. E se cada perda é uma ruptura nas famílias, como viver cada abismo? 

Em Kbela (Yasmin Thayná, RJ, 2015), vivência sob jazz arranhado, som do fio, da tesoura, cacofonia de vozes e suas presenças invisíveis urgem, no entanto, o encontro de mulheres negras pode ser canto conjunto. Experiência audiovisual encruza acalanto de escaleta, tambor clama sorrisos de orelha a orelha. Surgem diante do espelho lembranças íntimas, aquela mulher plural diz “desde pequena eu fico fazendo mil poses”, enquanto renascer é reivindicação diária.

Independente do ponto de partida, no deslocamento entre um programa e outro temos dimensões técnicas, afetivas, éticas e estéticas entre casa e rua, sonho e memória. Formas de resistência e escape. Desejamos que Rasteiras Imaginárias instaurem algum som audível interno para um momento global que convoca revide. Agora.

 

Talita Arruda – curadora e programadora de cinema

Melina Bomfim – curadora e programadora de cinema

 

Filmes

Programa 1 – Incensar o Mundo

Òrun Àiyé – A  Criação do Mundo [ (BA) – 2015 – ani – 12min – Direção: Jamile Coelho e Cintia Maria – livre 
Sinopse
O vovô Bira (Carlos Betão) conta para a sua neta Luna (Fernanda Crescencio) como os deuses africanos Olodumaré (João Miguel), Orunmilá (Jorge Washington), Oduduwa (Fábio de Santana), Oxalá (Carlinhos Brown), Nanã e Exu interagem para criar a Terra e os seres humanos. 

Deus  (SP) – 2017 – doc – 25min – Direção: Vinícius Silva – Livre 
Sinopse 
Roseli mulher negra e mãe da zona leste, periferia da cidade de São Paulo, cria seu filho Breno, sozinha.

5 fitas (BA) – 2020 – fic – 16min – Direção: Vilma Martins e Heraldo de Deus
Sinopse 
Em Salvador, todo ano acontece a tradicional festa para Senhor do Bonfim, onde fiéis, turistas e foliões, peregrinam até a famosa igreja para amarrar fitas e fazer pedidos. Os irmãos Pedro e Gabriel, ouvem desde cedo as histórias da avó e decidem se aventurar sozinhos para fazer um pedido especial. Lá eles aprender sobre religiosidade, sincretismo e importância da família.

Bia desenha – anjo de jambo  (PE) – 2019 – ani – 10min – Direção: Neco Tabosa – Livre 
Sinopse 
Bia e Raul são primos. As crianças moram com Raphaela e João, que são irmãos. Ela é mãe de Bia, ele é pai de Raul. As duas casas foram construídas no mesmo terreno, de frente para um grande quintal que a família herdou. Esse lugar fica na periferia da região metropolitana do Recife. O filhotinho de cachorro, Bolinha e a galinha Adelaide completam o núcleo de moradores do espaço. A grande aventura da vida das crianças é se encontrar depois da aula para brincar e desenhar. A série estimula a comunicação por desenhos, bilhetes e mensagens eletrônicas. Investigando os temas que passam pela cabeça de uma criança enquanto ela se expressa com letras, traços e cores.

Ilhas de calor (AL) – 2019 – fic – 20min – Direção: Ulisses Arthur – 12
Sinopse 
Na escola, Fabrício anda com as meninas e com elas cria um grupo de rap onde entoam rimas provocadoras para os meninos. Ele está apaixonado e guarda esse segredo só pra si, mas logo logo o muro invisível da paixão vai se estilhaçar.

Pietà (MG) – 2020 – exp – 6min – Direção: Pink Molotov – 10 
Sinopse
O caos e a fumaça, um bálsamo pras feridas abertas pelo tempo, neutraliza a constante sensação de não pertencimento causada pela travessia; ferramentas na construção estética das crises atuais, pois a eles nada pertence, neles nada permanece, e tudo deve ser refeito. Pietà é um trabalho sobre a desordem, sobre a ausência, sobre a negação da alma ao corpo e da própria “piedade”. É a evidência da repetição histórica das políticas de morte que se reestabelecem em nosso país desde a invasão. É a necessidade urgente de se ver em sua própria referência. Nossa nação é o calvário de uma juventude, o túmulo de Cristos e Marília incontáveis. A essa altura nos resta construir o futuro, planejar a ressurreição e a retirada da chave da morte das mãos do inimigo. 

Movimento (MG) – 2020 – doc – 12min – Direção: Gabriel Martins – Livre
Sinopse 
Tereza, nascida na pandemia do Coronavírus em 2020, aprende seus primeiros movimentos.

Programa 2 – (no) sampler dos gestos íntimos

Pode me chamar de Nadí (CE) – 2009 – fic – 19min – Direção: Déo Cardoso – Livre 
Sinopse 
A aguerrida e combativa Nadí, que tem um problema de aceitação de seus próprios cabelos, tem seu boné tomado por colegas de classe. Ela então parte contra tudo e contra todos, tentando recuperar o boné, até que ela conhece a modelo Laila e, com ela, descobre o poder de sua própria beleza.

Boa noite, Charles (RJ) – 2016 – ani – 19min – Direção: Irmãos Carvalho – Livre 
Sinopse 
Charles é um boneco de um filme stop motion. Quando vai dormir e apaga as luzes, seu medo do escuro transforma tudo ao seu redor. Marcos e Eduardo são dois diretores principiantes. Nem Charles, nem Marcos e Eduardo podem prever o futuro desse sinistro stop motion.

Do alvo ao papoco (CE) – 2022 – vídeoperformance – 6min – Direção: Durango – livre  
Sinopse 
Preso a uma cadeia de preconceitos e rótulos que está sempre marginalizando o povo preto e periférico, onde uma guerra está localizada. Na favela! Do Alvo ao papoco vem denunciar os ataques ao nosso povo. Feridas que não cicatrizaram, que permanece desde a invasão, que se começa a criar uma narrativa de extermínio ao povo preto e favelado, vem questões. Pra quem vai o papoco? Quem será o alvo? Eu lhe pergunto: você já deu voz a um favelado? Não? Então você é um assassino!

O segundo antes da coragem (SP) – 2020 – exp – 6min – Direção: Grace Passô e Wilssa Esser – livre 
Sinopse 
Um poema visual criado durante o início da pandemia de 2020.

Não vim ao mundo para ser pedra (BA/MG) – 2022 – doc – 26min – Direção: Fabio Rodrigues Filho – livre 
Sinopse 
Um samba sobre o infinito.

Kbela (RJ) – 2015 – doc – 22min – Direção: Yasmin Thayná – Livre 
Sinopse 
Um olhar sensível sobre a experiência do racismo vivido cotidianamente por mulheres negras. A descoberta de uma força ancestral que emerge de seus cabelos crespos transcendendo o embranquecimento. Um exercício subjetivo de autorrepresentação e empoderamento.

Os filmes serão exibidos pela plataforma InnSaei.TV de 6 a 10 de julho.

Fique atento a classificação etária de cada filme.

DEBATE – DRIBLE, POESIA E MOVIMENTO

Integrando a programação da Curta Mostra Especial, acontecerá no dia 9 de julho (sáb), às 17h, o debate “Drible, poesia e movimento”, mediado pelas curadoras Talita Arruda e Melina Bomfim, com a participação da curadora, jornalista cultural, artista visual, roteirista e realizadora audiovisual Karol Pacheco, do ator, roteirista e diretor Heraldo de Deus e do ator, produtor cultural e professor de arte Victor Hugo Leite (Vhfro). Saiba mais informações clicando aqui.

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