Homenageada do Festival


KARINE TELES

atriz, diretora e roteirista

Assista ao vivo, 5 de julho, 20h:

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Foto: Kelly Fuzaro

Karine Teles nasceu em Petrópolis, filha de uma pedagoga e um psicólogo. Cursou Artes Cênicas na UNIRIO, no Rio de Janeiro, onde começou a atuar no teatro. Em “Riscado” (2010), além de atuar, Karine também assina como co-roteirista. Pelo filme, recebeu alguns dos prêmios mais importantes da dramaturgia brasileira: o Kikito, o Redentor e o APCA. O sucesso foi repetido em “Que horas ela volta” (2015), “Benzinho” (2018) e “Bacurau” (2019). Atualmente, Karine acaba de estrear “Os Últimos Dias de Gilda” (Canal Brasil), primeira série brasileira a participar do Festival de Berlim (Berlinale Series), está na aguardada “Manhãs de Setembro”, primeira série de ficção da Amazon no Brasil, com segunda temporada confirmada. Atualmente finaliza sua participação como Madeleine no sucesso “Pantanal” (Globo) e foi convidada para fazer a primeira telessérie da HBO “Segundas Intenções”.

A marca do risco cênico de Karine Teles

Todo artista tem um quê de perfeccionista. Na verdade, todas as pessoas no mundo costumam almejar teoricamente a perfeição, mesmo que, na prática, seja meta inalcançável; apenas um norte para nos guiar. Porém, algumas pessoas especiais possuem o talento de acessar uma partilha do sensível na representação da realidade, desvelando ser nas fissuras das imperfeições que jaz o verdadeiro segredo da catarse artística. A atriz, roteirista e diretora Karine Teles, portanto, pode ser considerada uma especialista ímpar no quesito. Responsável por alguns dos papéis mais inesquecíveis e premiados dos últimos tempos, bem como presente nos maiores clássicos e sucessos de crítica e público desde a Retomada do Cinema Brasileiro, ela vem buscando as brechas e rachaduras na realidade que nos cerca para trazer a desconstrução da cena em todos os seus trabalhos, seja no cinema, teatro ou TV.

É nesse talento de desmontar a farsa entre matéria-prima e objeto cultural que ela cria um espelho fractal de todos nós, em nossas maiores fraquezas e erros, rabiscos, rasuras e riscados, de modo a encontrar o belo no que o olhar geralmente hesita ou rejeita enxergar. Aqui, em sua arte, as vulnerabilidades mais humanas são fortalezas a serem descobertas, rascunhos que ampliam nossa identificação com o real, e despem a carapuça da atuação numa antropologia cênica.
Logo de plano, em sua carreira, contou com participação especial em clássicos como “Madame Satã” (2002) de Karim Aïnouz e o policial “O Lobo Atrás da Porta” (2013) de Fernando Coimbra, mas seria quão logo no Cult “Riscado” (2010) de Gustavo Pizzi que viria a revelação solo de seu protagonismo. No filme, ela interpreta a metalinguagem por excelência: Na pele de uma atriz que batalha por papéis significativos, enquanto faz uns bicos como personalidades famosas do naipe de Carmen Miranda em obras publicitárias – uma crônica ácida da falta de autossustentabilidade do nosso meio audiovisual.

Karine consegue, ao mesmo tempo, interagir e desconstruir com o próprio ato de filmar, mesclando-se a materiais de arquivo de outras temporalidades e projeções dentro do filme. É um desafio à platéia, também representada dentro da tela grande, como um observador voyeur que se passa por desentendido quando o palco é removido da equação diante da performance da atriz-personagem. E é aí, então, que a arte, a maquiagem e as fantasias invadem as ruas, praças, esquinas ou locações abandonadas, como a piscina vazia diante de uma panorâmica da Cidade Maravilhosa, e que serve de cenário para um musical esquecido, tudo a reivindicar o engajamento do público em sua própria cultura.
Para além da gênese supracitada do prolífico resultado de trabalho e de vida com Pizzi, pai de seus filhos (também participações especiais catalisadoras da arte em família por vários de seus filmes), a fusão criativa dos dois, desde os roteiros à execução, já rendeu vários outros sucessos. Vale ressaltar de plano a peça vertida para minissérie no Canal Brasil “Os Últimos Dias de Gilda” (2020), e mais um Cult dos cinemas, “Benzinho” (2018), onde Karine volta a contracenar com o colega Otávio Muller, também de “Riscado”, e acrescentando a igualmente consagrada Adriana Esteves, além de várias participações especiais e grande elenco.

“Benzinho” foi um dos trabalhos mais premiados na sétima arte brasileira contemporânea, principalmente por ambas atuações femininas. Esta representação fica evidente nas analogias com a própria casa da família principal, e com o território ao redor, no desmoronamento de um padrão imposto pela sociedade… São canos que estouram como emoções à flor da pele, ou vazamentos que transbordam das paredes e do que seria considerado sólido como fluxo deste matriarcado, ligado pela água, chuva e mar como elemento principal. O grito, a lágrima e a dor são gozos do viver em ritos de passagem onde nada se perde, tudo se transforma.

Sem falar em projetos que tiveram um efeito arrasa-quarteirão para todo o país, e também internacionalmente, como os laureados longas-metragens “Que Horas Ela Volta?” (2015) de Anna Muylaert e “Bacurau” (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Além do fato de que trabalha sempre com muita representatividade, seja dirigida por renomadas diretoras, como a supracitada Muylaert, seja por grandes nomes do cinema negro, como os irmãos Maurílio e Gabriel Martins de “No Coração do Mundo” da produtora Filmes de Plástico. Nestas obras, Karine desconstrói, através de suas personagens, uma visão elitista e colonizadora que ainda teima em se arraigar nas raízes de uma estrutura excludente do Brasil, e cuja arte é chave essencial pra acabar com todo tipo de intolerância e preconceito.

Para além de muitos trabalhos igualmente no teatro e na TV, como novelas aclamadas, vide a recente “Pantanal” (2022), Karine também se torna diretora ao longo de sua carreira, há de exemplo curtas desde “Otimismo” em 2015, com influência de artes plásticas à videoarte, até os novos projetos, como “Romance” e o longa-metragem em realização “Princesa”.
E é por isso que sua homenagem na 21ª Goiânia Mostra Curtas é não apenas uma declaração de amor a seu trabalho de atriz, como não deixa de ser um manifesto de reconhecimento por sua autoralidade atrás das câmeras, já que seus trabalhos na direção serão exibidos como belos exemplos do alcance desta produção completa, num singelo gesto de gratidão por seu riscado artístico.

Filippo Pitanga, curador e crítico de cinema

21ª Goiânia Mostra Curtas

Mostra Homenagem – Atriz Karine Teles

Os filmes estarão disponíveis à partir de 5 de julho (terça) às 20h, até 10 de julho (domingo).

Otimismo (RJ) – 2015 – ani – 10min – Direção: Karine Teles. [14]
Sinopse
Um olhar libertário sobre 5 pessoas, dois cachorros e o amor – em fotografias animadas e som direto.

Quinze (MG) – 2014– fic – 26min – Direção: Maurílio Martins. [16]
Sinopse
Luiza fará 15 anos. Raquel tem alguns sonhos.

Nada (MG) – 2017– fic – 27min – Direção: Gabriel Martins. [L]
Sinopse
Bia acaba de fazer 18 anos. O final do ano se aproxima e junto dele o ENEM. A escola e os pais de Bia estão pressionando para que ela decida em qual curso vai se inscrever. Bia não quer fazer nada.

Feijoada Completa (RJ) – 2012– fic – 20min – Direção: Angelo Defanti. [12]
Sinopse
Do outro lado da linha, seu marido: “Mulher, você vai gostar, tô levando uns amigos pra conversar. Eles vão com uma fome que nem me contem, eles vão com uma sede de anteontem”. Carolina não vai botar mais água no feijão.Baseado no conto de Luis Fernando Verissimo, inspirado na canção homônima de Chico Buarque.

Entrevista com Karine Teles

Gostaríamos de começar perguntando como surgiu a motivação para ser atriz em sua vida e como essas experiências de vida e em família lhe inspiram na carreira?

Percebi por volta dos 12 anos, assistindo a uma peça de teatro, que eu talvez fosse capaz de fazer o mesmo que aquelas pessoas que eu via em cena. Quando me mudei para Maceió aos 14 anos, entrei para um curso de teatro e logo depois passei num teste para um primeiro Espetáculo. “O despertar da Primavera” dirigido pelo genial e saudoso Glauber Teixeira. Essa experiência, do grupo de teatro, da construção coletiva de uma coisa, os ensaios, as apresentações, e principalmente o exercício de presença que é estar e cena, me arrebataram e eu tive certeza que essa seria minha profissão.

Se puder falar um pouco mais de seu processo criativo… Como é estabelecer uma linha tênue entre a construção e a desconstrução de suas personagens, que costumam sempre ser levadas ao limite de suas formas e visões de vida? Como é esticar e até romper este limite perante uma sociedade cada vez mais distópica em que o absurdo passou a ser naturalizado?

Eu não acho que eu tenha um processo criativo… Um método que eu aplique a todos os trabalhos… Talvez a única coisa em comum – seja a escuta. Entender o que é o projeto, o que se pretende com ele, qual o assunto e como o assunto vai ser abordado. Eu realmente acho que eu sou uma parte de um todo e primeiro quero entender que todo é esse que se pretende. A partir dai vou buscar junto com a equipe criativa de cada projeto, referências e caminhos possíveis…. Tem projeto que tem preparação, ensaio… Tem projeto que tem um telefonema… Portando o exercício comum talvez seja mesmo o exercício da presença. Pra mim o meu trabalho é uma parte de uma construção coletiva e as personagens também o são. A minha parte é estar disponível, com os canais abertos e emprestar meu corpo e minhas subjetividades para as discussões propostas nos trabalhos. Acredito muito que quando se assiste algo, se está diante de um espelho, onde nos enxergamos através do que vemos, nos reconhecendo ou rejeitando o que vemos. Os limites são rompidos nessa interação- do espectador com o que é apresentado – e portanto cada experiência é diferente e o meu trabalho não existe e não se completa sem o olhar do outro. Pra mim a importância é a discussão, a lembrança de que nenhum absurdo não pode ser naturalizado ou que o que pode ser considerado absurdo, talvez seja a coisa mais natural.

Até hoje é muito forte a parceria prolífica com Gustavo Pizzi a gerar novas obras conjuntas em vários formatos multipremiados, desde “Riscado” a “Benzinho” e “Os últimos dias de Gilda”… Como funciona essa troca de ideias? Haveria uma criatividade mais livre e independente do que com outras produções?

Esses três trabalhos que fiz sob a direção do Gustavo, são trabalhos importantes e fortes na minha história, mas não caracterizaria como parceria. Até porque criativamente meu trabalho era restrito as funções de co-roteirista e atriz/parte do elenco. Nunca tivemos uma parceria artística, não foram trabalhos que fizemos em conjunto. Os projetos são dele, a visão dele e eu apenas participei.

Como artista completa que atua em diversas mídias e formatos, do cinema à TV, do teatro ao streaming, como é o seu processo de seleção de projeto? Haveria desafios especiais que lhe atraem em cada uma destas mídias? Estes desafios mudaram com o tempo?

São muitos os fatores que me levam a escolher um trabalho ou outro. Eu adoraria poder dizer que tenho liberdade total para escolher apenas os que me interessam mais artisticamente no momento, mas isso não é verdade. Eu sou uma artista independente o que significa que se eu não trabalhar eu não recebo. Portanto às vezes isso fala mais alto, não posso me dar ao luxo de fazer um projeto lindo se tenho um outro que vai pagar minhas contas, mas se eu consigo combinar as duas coisas faço os dois. Claro que há um limite. Se existem coisas com as quais eu discorde em projetos, eu recuso, mesmo que não tenha outra coisa em vista. Sobre as diferenças entre as mídias, elas não são critério na hora da escolha, apenas interferem na forma de trabalho, no ritmo, no tempo de dedicação…. São exercícios distintos, que me interessam por igual, mas cada um por um motivo diferente. Quando acontece de eu realmente poder escolher, eu claro, escolho o projeto que me estimula mais artisticamente. Pode ser por conta das pessoas envolvidas ou do assunto… Acho que com o tempo o que eu ganho é o desenvolvimento de ferramentas, mas começar é sempre parecido. Sempre me sinto vivendo o inédito.

Sendo uma artista que além de atuar também exerce outras funções, como roteirista e diretora, como é para você compor uma linguagem autoral, seja a partir de argumentos seus ou em colaboração com outros nomes?

Nunca pensei nisso e também não considero isso uma busca minha. Mesmo quando escrevo ou dirijo alguma coisa que parta de mim, continuo acreditando numa autoria coletiva. Até porque como já disse antes, o trabalho só se completa com a visão do outro – de quem assiste – e isso varia tanto quanto a quantidade de pessoas que assistem, portanto não posso ter a arrogância de acreditar que eu possa ter controle sobre o que se cria nem de ser autora de nada. Posso até iniciar uma proposta, um argumento, uma ideia para algo, mas essas coisas vão se transformando a medida em que vão sendo agregadas as ideias dos outros e o bonito e o importante pra mim, são esses encontros.

Como você se sente com a homenagem à sua carreira como atriz pela 21ª Goiânia Mostra Curtas?

Fico feliz, mas também com um pouco de vergonha por não me achar tão importante assim. Aceitei porque mostrar meus trabalhos é sempre uma coisa que me interessa. Sempre surgem conversas e debates interessantes a partir das exibições. Portanto, me sinto grata. Gratíssima.

À luz dos trabalhos também como cineasta, desde a bela experimentação visual de “Otimismo” em 2015, com influência de artes plásticas à videoarte, até os novos projetos, como “Romance” e “Princesa”, como está sendo para você igualmente ter seu mais recente trabalho de direção na 21ª Goiânia Mostra Curtas?

Romance também esta no campo da experimentação pra mim. As cenas são sempre compostas por um plano único e num enredo alegórico, trabalhei um ritmo e uma contracena “realista” com os atores. Por exemplo. Eu acho que o formato curta pode ser muito interessante para se experimentar. Estou animada de mostrar o filme e saber o que vem de retorno. Uma seleção super interessante de curtas com linguagens variadas, como a seleção da mostra, sempre me interessou como espectadora então fazer parte dessa seleção, me enche de alegria.

Como você vê futuros projetos nestas duas áreas na sua carreira, seja dirigindo a si mesma ou a outros grandes nomes com quem gostaria de compartilhar a cena?

Não me imagino dirigindo a mim mesma. Os filmes que tenho vontade de dirigir (por enquanto) terão sempre artistas que me instigam e com quem eu tenho vontade de trocar ideia. Gosto da possibilidade de colaborar com a criação, também de fora e acredito que a minha experiencia como atriz possa me ajudar nessa comunicação com os outros artistas. Foi incrível poder dirigir a Gilda e o Kike, atores com uma estrada enorme, bem como o Antonio e a Monique que estão começando e Camilo e Bruno que são grandes amigos e parceiros de longa data. Cada um do seu jeito, com sua inteligência e seu talento, construindo junto as situações do filme. Tenho vontade de dirigir quando entender que a minha maior chance de colaborar com a discussão seja na direção, e de escrever quando me couber desta forma e de estar em cena quando meu trabalho como atriz puder contribuir. O mais importante pra mim é a conversa.

Você está em alguns dos maiores clássicos modernos do cinema brasileiro desde a Retomada, com mais de 20 anos de carreira em longas-metragens, seja começando em “Madame Satã” (2002), perpassado a revelação solo “Riscado” (2010), o policial “O Lobo Atrás da Porta” (2013), além dos sucessos absolutos tidos como melhores filmes de seus respectivos anos: “Que Horas Ela Volta?” (2015), “Benzinho” (2018) e “Bacurau” (2019). Sem falar que trabalha sempre com muita representatividade, seja dirigida por mulheres, como Anna Muylaert, seja por grandes nomes do cinema negro como os irmãos Maurílio e Gabriel Martins de “No Coração do Mundo” da produtora Filmes de Plástico. Como você vê esta evolução refletir no cinema brasileiro contemporâneo e o que você gostaria de ver ainda nos anos por vir?

Sim, eu tenho muita felicidade de ter tido a chance de trabalhar com artistas tão interessantes e contrubuir com discussões morais, sociais e também artísticas/estéticas tão diversas e pertinentes. Depois da retomada, estava começando a ficar claro que a indústria cinemátografica e audiovisual do nosso pais, é acima de tudo, cheia de talento e competência o que considero a parte mais importante na construção de qualquer indústria que gere empregos, impostos e movimente a economia. Chegamos a gerar mais de 300 mil postos de trabalho direto e milhares de centenas de postos indiretos. Com o desmonte recente, um trabalho que vinha sendo feito há muitos anos e que ainda precisava de ajustes e melhorias, sofre um baque terrivel que entra pras estatisticas do desemprego e do desamparo que tem atingido novamente tantas pessoas no nosso país. Do ponto de vista artístico, seguimos cheios de ideias e vontades e projetos e temos encontrado formas de fazer – longe das condições ideais, muitas vezes, mas seguimos fazendo. O que eu mais desejo é que a gente consiga retomar este crescimento como indústria, retomar os projetos de melhoria de distribuição (nosso maior problema ainda) e de diversidade de vozes e assim naturalmente seguiremos crescendo e evoluindo.

(A entrevista com Karine Teles foi realizada pelo curador e crítico de cinema Filippo Pitanga, para a 21ª. Goiânia Mostra Curtas)

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